quarta-feira, 22 de julho de 2009

Dêem-lhe o título que quiserem que eu já esgotei a lista

O pediatra acha que o M. tem apenas um ligeiro atraso psicomotor sem estar propriamente fora da normalidade, que é preciso dar-lhe tempo para amadurecer, que é apenas um pouco abebezado e que não lhe parece que seja autista.

A educadora diz que o M. tem um comportamento diferente de todos os outros da sala, mas faz tudo o que os outros fazem, e atribui a diferença ao facto de ter estado sem ouvir correctamente durante muito tempo e de ter saído do colégio. Diz que já pôs a hipótese de autismo mas que a foi pondo progressivamente de lado. Diz que desde a cirurgia houve uma grande evolução por parte do M. Que ele agora faz quase tudo 'à primeira', que não fica a ver o que os outros vão fazer para depois fazer também, que percebe as ordens, que não é preciso falar alto com ele, que agora emite muitos sons que antes não emitia e tagarela mais. Diz que tem muitas atitudes que são contraditórias com o autismo, e que é preciso dar valor ao que ele faz, aos aspectos positivos, e não ao que ele não faz. O meu marido acha que o M. está bem e que eu me preocupo demais.

Eu procuro ver os aspectos positivos e fico mais tranquila com os 'relatórios' da educadora, porque, afinal, ela passa muito tempo com ele e sei que tem uma postura vigilante (além disso, trabalhou vários anos com autistas, embora não desta idade). Mas, depois, surge inevitavelmente uma consulta de otorrino e cai tudo por terra. Porque o homem só há meio de ver o que há de negativo e juro que já estive para lhe dizer que acho que ele (o otorrino) é que deve ser autista (pelo menos quando está comigo) porque não liga patavina ao que lhe digo. É que não liga mesmo. Pergunta-me como é que está o M. em termos de audição (mas para que é que pergunta se não lhe interessa o que vou responder?) e eu falo-lhe da evolução em casa e no colégio, na música a que ele reage como nunca fez, nas tentativas que faz para falar embora não se perceba o que diz. Ele simplesmente ignora o que digo e faz um mini-exame ao M. muito pouco científico em trinta segundos.

O otorrino conclui que não gosta do comportamento do M. e que quer que repita o exame dos potenciais auditivos. Eu fico fula porque digo-lhe que ouve, a educadora garante que ouve, e ele não quer saber. Digo-lhe que não quero repetir o exame porque assim vivemos em permanente angústia e que (mais importante ainda) a doutora que fez o exame garantiu que não era necessário repeti-lo, uma vez que os valores que não estavam completamente normalizados se deviam apenas à operação ser recente, que com o tempo a ligeira variação iria normalizar (ela foi muito assertiva no que disse). Entretanto, o M. dirige-se para a cadeira de passeio e tenta sentar-se (quer ir embora, claro) e eu, que tenho de fazer sempre de advogada de defesa do meu filho face a exames tão científicos :S por parte do otorrino, viro-me para o M. e pergunto-lhe:
- O dói-dói, M.? [Não me liga.]
- O dói-dói? [Insisto, e o M. olha para o cotovelo onde tem o seu primeiro dói-dói com direito a crosta.]
- Vai mostrar o dói-dói ao sr. doutor! [E o M. vai ter com o sr. doutor, olha para ele, ri-se e mostra-lhe o cotovelo, e fica à espera que o doutor lhe dê um beijinho. Que deu porque eu disse-lhe que o M. queria. Caso contrário, nem se mexia. A sério que este médico me faz confusão, porque critica o comportamento do M., mas o comportamento dele também não é o melhor. Quer dizer, a criança vai 'toda dada' ter com ele, de cotovelo em riste, e ele não faz de conta mas quase. É assim que ele lida com uma criança de dois anos? E se o meu filho fosse daquelas crianças que nem entram no consultório porque têm medo e fartam-se de chorar porque não podem ver 'batas brancas à frente', se calhar o sr. doutor concluía logo que estava perante um caso de esquizofrenia... E no fim, estão a ver eu a dizer ao M. para dar um passou-bem ao doutor e o doutor nem lhe estende a mão? O meu filho sai a mim, e só estende a mão quando a outra pessoa também a estende, bolas, e o médico nem se mexeu, para variar. Juro que só de pensar que tenho de lá voltar, sinto náuseas. Primeiro, o otorrino diz que se o meu filho tiver outro problema que não auditivo, não é da competência dele e tenho de falar com o pediatra. Depois, volta e meia, dá a entender que o meu filho tem isto ou aquilo, subtilmente (ou não, depende da perspectiva). Porra, que eu já lhe disse que falei com o pediatra e até já lhe disse mais do que uma vez o que o pediatra disse, e que estou atenta, e até já marquei consulta com um neuropediatra (mas desta consulta nem lhe falei nem vou falar porque, desculpem lá, se ele não tem nada a ver com as outras áreas, não tem nada a ver com as outras áreas). Basicamente, o que o sr. doutor acha é que, não tendo um problema auditivo, o meu filho tem à viva força que ser autista. E eu não digo que não seja, mas prefiro deixar esse diagnóstico para alguém que seja especialista no assunto. Ou então, fio-me no que o otorrino acha e concluo que é autista e poupo 100 euros na consulta do neuropediatra que só consegui marcar para Setembro porque o médico está de férias e nem acordo com o seguro tem. Bolas! Primeiro o meu filho tinha uma surdez neurossensorial severa a profunda. Não tem! Agora é autista. E eu pergunto: se a educadora e o pediatra, que conhecem o meu filho melhor do que ele e lidam com crianças a toda a hora, acham que o M. está a evoluir e que não lhes parece ser um caso de autismo, como é que o otorrino tira outras conclusões tão facilmente? É que é o 'Segredo' ao contrário! Pois que devemos sempre procurar ser tratados por médicos que nos transmitam confiança e que sejam positivos, que 'trabalhem connosco', e não contra nós. Neste caso, deixo no consultório dele a minha energia e venho para casa com a energia negativa dele. Sou eu que, parafrasenado o peditra, lhe tenho de dizer: 'Vamos dar-lhe tempo!'] Tenho o direito a não querer ir a um otorrino tratar de ouvidos e acabar com o fantasma do autismo sempre em cima. Se fosse a primeira consulta, ainda vá que ele desse a dica, porque eu podia ser uma pessoa pouco informda e nem saber o que era, mas, caramba, já não é a primeira consulta (será que tenho de lhe atirar com um nada político 'já disseste!'?).

É claro que eu, que já tenho de fazer um grande esforço para aguentar tudo, venho abaixo.
A auxiliar da sala do M. veio dizer-me para ir a outro otorrino, para não ir mais a este, e que ela concorda com o pediatra. Mas não vou a outro otorrino, pelo menos para já, porque foi este que o operou. Para não dizer também que a outros otorrinos já eu fui, e não me apetece andar a saltar mais, e se a cirurgia já foi feita, não há muito que vá fazer a outro. Pelo meio, fiquei a saber que o tubinho do ouvido direito já não está no sítio, saiu do tímpano e, portanto, já não está a fazer efeito. Daí as dores que o M. teve durante 2-3 dias e a secreção amarelada/acastanhada que apareceu na cama dele, foi tudo devido ao tubo se ter deslocado. O tubo do lado esquerdo mantém-se e ambos os ouvidos estavam bem, secos como se quer.

O pior disto tudo, já sei que parecendo uma adolescente em crise, é que ninguém me ouve, ninguém me compreende, ninguém quer saber. *****!

11 comentários:

rita disse...

A sério, não sei como é que aguentas isto. Esse homem é uma besta e tem a sensibilidade de um calhau.
Só uma dúvida: estando o tubinho fora do lugar, isso tem algum problema? Tem que voltar a ser colocado? Retirado?
Bjs e olha, tem paciência...não há mal q sempre dure.
Muita força.

csr disse...

És uma mãe e pêras, uma mulher de pedra e cal!
Um beijo enorme, do tamanho do universo para ti, que tens aguentado estas cenas macabras com o senhor otorrino.
Eu cá ia numa de mudar, que quando me dizem coisas que não gosto procuro sempre uma outra opinião, mas na tua situação é mesmo esperar para Setembro e ver no que dá.
bjs grandes

Mamã Etc e Tal disse...

Rita: Ele não é propriamente antipático nem bruto, mas é demasiado racional, precipitado e alarmista... E às tantas tem imaginação a mais ou anda a ver demaisadas séries americanas sobre hospitais, é o que é. :S

Tem que ser retirado, mas o médico disse que não o ia retirar nesta consulta porque ia doer, e para a próxima o M. já não o ia deixar mexer nos ouvidos, por isso penso que fica para Setembro. Isto só mostra como ele não tem ideia de como é o meu filho. Provavelmente, o M. ia deixá-lo mexer nos ouvidos na mesma, porque ia doer-lhe sim, mas o miúdo é um doce.

susana disse...

Arre...que otorrino é esse?
Pois o do Gonçalo cm já temos nas msg n é assim tão alarmista pelo contrário tem uma sensibilidade.
mas tb cm tu tenho de esperar até Setembro.
Pq n mudas de otorrino?Eu mudei pq o anterior dizia q o Gonçalo n tinha nd ....

jokitas

Luz de Estrelas disse...

Esse homem faz-te mal. E é parvo que se farta. Não tem a mínima competência para fazer outros diagnósticos que não os da área dele, então porque o faz? Ó Xana, o teu filho vai amadurecer, pois claro que vai. Esse estado de angústia é terrível, mas tens de confiar mais no teu instinto e menos nos fantasmas. Se eu comparar o Bi com a Clara, da mesma idade, não têm nada a ver. Sabes o que é NADA?????? Nadinha. O Bi foi muito devagarinho até sair da casca. E não teve nenhum problema auditivo a somar a isso, fará se tivesse! E, no entanto, hoje é um menino muito espertinho, ao nível dos outros, com algumas habilidades extra. Todos os filhos têm uma. eheeheheh. Tu vais ver como vai estar o teu filho daqui a seis meses. Nem o vais reconhecer. Não sofras mais. Bem que podias emailar-me, se tiveres alguma dúvida. Mas acho que já não mi amas! Ou então estás zangada! A sério, posso ajudar-te, se quiseres. Mas digo-te já que não te preocupes com esse médico pessimista. Se puderes, foge dele.

Mãe da Tiz disse...

Esse médico carrega-te de energias negativas... ignora-o na medida do possível. Pede-lhe para que se limite a opiniar na área dele e que deixe o resto a quem lhe compete! Que ser irritante!
Acho que deves confiar em ti e na educadora que passa bastante tempo com ele, rodeia-te de energias positivas e vais ver que em setembro o neuropediatra vai deixar-vos bem mais tranquilos!

Mil beijos***

Miragem disse...

Fo***-se!!!
Parabéns!! Como é que aguentas esse homenzinho???
Eu já tinha dado meia-volta e escolhido outro!!
Parabéns, a sério que sim!!! Pela tua coragem e força!!
Não interessa se ninguém te ouve. Um dia, há-de ouvir-te o teu filho!!

Beijos nossos

Gaivota disse...

Bolas, que angústia! Não sei como consegues manter a objectivdade tão saudável depois de uma consulta dessas. Eu ir-me-ia completamamente abaixo, a sério que sim. Porque tu no fundo sabes que ele está bem e que está a reagir e a evoluir a cada dia que passa, mas é um médico a falar e é sobre o teu filho. Eu entendo.

Podes tentar encarar o médico como estando a fazer o papel de advogado de diabo. Eles gostam muito de se proteger, de abordar as coisas pelo lado negativo. Provavelmente acha que tu estás a fazer o teu papel de mãe que exacerba o lado positivo e deve querer contrapôr. Mas esquece-se que as mães conhecem os filhos como ninguém e que se o teu filho fosse mesmo autista, tu, melhor do que o resto do mundo, adivinharias.

E uma criança, que vem, doce e dada, oferecer um cotovelo para dar um beijinho, não poderia nunca ser autista. É exactamente o oposto.

Ele está bem e vai ficar ainda melhor. Confia em ti. Confia nele.

Um beijinho

Charilas disse...

E que tal oferecer um par de patins a esse otorrino e procurares outro (competente!).

Do que descreves não me parece NADA que o M. seja autista e sinceramente...acho que o pai e a educadora têm razão.

É caso para dizer: Mãe sofre!

Bjs

Luz de Estrelas disse...

Recebeste o meu email?

Ana disse...

Eu conheço um otorrino que além de muito competente é simpático e meigo: Dr. Ruah (penso que é Carlos). A minha irmã também andou com a minha sobrinha em vários otorrinos e alguns queriam operá-la e este disse-lhe que não era preciso e ela ficou boa sem operação. Eu sei que é uma situação mt chata e custa mudar assim de médico, a pediatra da minha filha por vezes também tem atitudes que eu não gosto e apetece-me mudar mas ao mesmo tempo dá-me segurança porque era ela que estava lá quando a Leonor nasceu...é um dilema!!!